Quem tem medo do anonimato?
Vamos encarar a realidade: “anonimato” se tornou uma palavra malvista.

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Frequentemente é associada a “esconder” atividades ilícitas e os responsáveis por elas. Não apenas essa associação é falsa, como também traz enormes consequências para nossa privacidade, tanto online quanto offline.
Porque o anonimato é tão importante, online e offlline
A nova série da Nym, Quem tem medo do anonimato?, tentará desmistificar o anonimato e explorar sua relação fundamental com a privacidade e uma vida segura e democrática. No entanto, nada é tão simples, por isso também precisaremos explorar os limites e os possíveis perigos do anonimato.
“Anonimato não é apenas uma máscara; é um escudo.”
– Anonymous
O que é o anonimato?
Por um momento, vamos esquecer toda a disseminação do medo sobre criminosos anônimos, rostos sombreados à espreita no escuro tentando nos prejudicar. Sim, o medo do desconhecido e do irreconhecível é muito real. Mas o anonimato não é também um aspecto central da vida humana? E, quando se trata de vigilância online, muitos dos nossos adversários são tão sombrios que nem conseguimos perceber.
O significado do anonimato
“Anonimato” vem do grego antigo, em Inglês a grafia é Anonymity, significando literalmente o estado (-ity) de não ter (ano-) nome (nym). Mas por que desejaríamos perder nosso nome? Isso não é o que nos torna indivíduos e protege nossas identidades únicas?
Em alguns casos, sim. Ter um nome identificável pode garantir que a propriedade privada nos pertença ou permitir que falemos de forma autêntica e sejamos responsabilizados pelo que dizemos publicamente. Mas ter um nome que nos vincule a algo pessoal também é o que nos deixa vulneráveis a ataques e exploração, quando tudo o que realmente queremos e precisamos é privacidade.
Dada a vigilância e o rastreamento generalizados dos microdetalhes de nossas vidas online, essa vinculação de nossas identidades com o que esperamos ser uma atividade privada infelizmente se tornou uma indústria comum para lucro e controle. No entanto, isso não começa e termina na internet.
Mas antes de nos aprofundarmos, vamos considerar um exemplo mais simples para entender o valor do anonimato.
Um jogo de cartas

Rounders(1998)
Imagine que estamos jogando um jogo de cartas. Cada um de nós tem uma mão individual, que é privada e oculta dos outros até decidirmos jogar uma carta. Ao fazer isso, a carta se torna pública. Em alguns jogos, podemos até compartilhar uma mão coletiva, na qual nem mesmo os companheiros de equipe sabem quais cartas os outros têm.
E então há o baralho do qual as cartas podem ser coletivamente retiradas. Uma chave para um jogo justo é que cada carta no baralho tem dois lados. Primeiro, há o valor da face (número e naipe), com seus respectivos benefícios para os indivíduos quando são mantidos ou jogados. E então há o verso da carta, voltado para o público e anônimo para eles.

O anonimato do verso da carta é essencial. Se algo sobre uma carta no baralho pudesse ser usado para indicar o valor da face (cartas com formatos ou danos diferentes, designs ou cores únicas), alguns jogadores poderiam desanonimizar a carta para obter uma vantagem injusta sobre os outros. Isso acabaria com a diversão, a alegria e o próprio aspecto do jogo de azar.
Claro, a vida humana não é apenas um jogo. Mas os jogos revelam algo sobre as pessoas que os inventaram: há sempre uma interação entre público e privado, entre anonimato e desanonimização, que tem consequências reais para todos nós.
Privacidade e anonimato certamente não são a mesma coisa, mas no mundo contemporâneo podem compartilhar um propósito comum. Portanto, vamos primeiro considerar como nossas expectativas de privacidade no mundo real evoluíram politicamente e lutam para encontrar um espaço igual na web.
Privacidade como um direito político
Os direitos à privacidade estão consagrados nas constituições democráticas ao redor do mundo, embora bilhões de pessoas ainda não se beneficiem deles. Claro, os direitos políticos são contextuais e jurisdicionais, dependendo do país ou da sociedade. No entanto, existem momentos específicos na história que ajudaram a avançar o argumento crescente de que a privacidade é um direito universal.
A constituição dos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, o “direito à privacidade” tem origem na 4ª Emenda à Constituição de 1791:
“O direito do povo de estar seguro em suas pessoas, casas, papéis e bens, contra buscas e apreensões injustificadas, não será violado…”
Isso tem um contexto importante. Antes da independência dos Estados Unidos do domínio colonial da Inglaterra, os americanos frequentemente tinham seus pertences pessoais revistados e suas “papéis” ou correspondências confiscados e lidos pelas autoridades coloniais. Essas buscas arbitrárias eram muitas vezes realizadas sem justificativa legal (“mandados”) pela polícia colonial e tendiam a ser politicamente motivadas: procurando itens não taxados e associações políticas anti-coloniais, ou simplesmente realizando varreduras indiscriminadas em busca de material de chantagem.
Nota*:* A grande maioria dos nossos “papéis” e até mesmo “casas” e “bens” são agora ativos digitais.
Os Estados Unidos são apenas um país entre outros. E, no entanto, uma lei com mais de dois séculos de idade estabeleceu a base para uma luta comum na qual pessoas em todo o mundo continuam a se engajar para garantir acesso à informação e comunicações livres. No fim das contas, a Constituição dos EUA não foi apenas uma batalha para deter um governo autoritário, mas também para prevenir a ressurreição do autoritarismo no futuro.
A privacidade como um direito humano
A privacidade também se tornou uma parte fundamental da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), à qual os membros das Nações Unidas se comprometeram, em princípio, a proteger “contra tais interferências ou ataques”:
“Ninguém deve ser sujeito a interferências arbitrárias em sua privacidade, família, casa ou correspondência…” (Artigo 17)
Como a DUDH deixa claro, essas proteções à privacidade pessoal são inseparáveis de outros direitos humanos fundamentais, como a “liberdade de pensamento” (Artigo 18) e a “liberdade de opinião e expressão,” incluindo o direito de “procurar, receber e transmitir informações e ideias por qualquer meio e independentemente de fronteiras” (Artigo 19).
A privacidade, nesse contexto, é muito mais do que um direito pessoal: é uma capacidade democrática que nos permite associar e nos comunicar livremente com os outros. Não importa quem somos ou onde estamos.
Além disso, a privacidade está ligada à informação compartilhada, mas a própria informação é complexa. E o advento da internet acelerou essas complicações.
Privacidade online
Cada vez mais, nossas vidas estão ocorrendo online, e à medida que isso acontece, há uma quantidade enorme de informações pessoais que estão sendo disponibilizadas, vulneráveis à vigilância e ao rastreamento de dados. Mesmo quando o conteúdo do que fazemos ou dizemos está criptografado, nossos dados criptografados vazam uma quantidade considerável de metadados que estão sendo sistematicamente coletados e utilizados sem que percebamos.
Felizmente, novas proteções legais para a privacidade online começaram a surgir em todo o mundo para conter a exploração de dados pessoais. A maior até agora é o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR) da UE, de 2018. O GDPR se compromete a proteger a segurança dos dados e a privacidade dos cidadãos da UE, independentemente das empresas que possam manipular esses dados globalmente. Este é apenas o começo e não o fim da história.
Além de defender a importância da criptografia de ponta a ponta para proteger a privacidade do conteúdo do que fazemos e dizemos online, o GDPR também introduz uma série de novos direitos para os “titulares de dados”, ou seja, nós que usamos a internet. Isso inclui, por exemplo, o direito de ser informado sobre como nossos dados pessoais serão utilizados e até mesmo o direito ao apagamento ou “direito de ser esquecido”, ou seja, de remover nosso nome do domínio público digital.
O que em grande parte permanece intocado pelas disposições do GDPR, no entanto, é o que pode ser feito com nossos metadados. Mas falaremos mais sobre isso depois.
Da privacidade ao anonimato
Até agora, esta é uma história sobre a evolução da privacidade: dos direitos constitucionais de um país específico, aos direitos universais, até os direitos digitais (ainda regionais). Mas o que tudo isso tem a ver com o anonimato?
Certamente não é necessário ser anônimo para ser privado em todos os aspectos da vida. Por exemplo, devemos ser capazes de discutir assuntos em particular dentro dos limites de nossas casas e grupos sociais, enquanto outras pessoas em nosso bairro ou sociedade conhecem nossos nomes reais.
Mas existem contextos importantes em que a verdadeira privacidade, liberdade de expressão e acesso à informação exigem o anonimato como uma ferramenta para alcançá-las. Então, vamos começar a explorar como isso acontece.
Anonimato para uma vida privada e segura
O anonimato é, de fato, uma necessidade social para todos. Nossos direitos e segurança, tanto pessoais quanto coletivos, muitas vezes dependem dele. Aqui está um gostinho dos tópicos que a nova série da Nym, Quem tem medo do anonimato?, explorará nos próximos meses.
Votação
Quando votamos em uma eleição, não apenas esperamos que esse voto seja respeitado e contado, mas também que ele seja anônimo e não conhecido publicamente. Os fatos básicos de um voto devem ser públicos, mas nosso nome e informações pessoais devem ser desvinculados publicamente de nós. Identificar eleitores individuais para um partido ou candidato político pode levar à intimidação de eleitores, exclusão social ou até mesmo assassinatos direcionados em regimes autoritários. O anonimato pode garantir a participação democrática.
Existem muitas técnicas para anonimizar os votos dos eleitores em todo o mundo, ao mesmo tempo em que se previne a fraude eleitoral. No entanto, votar pessoalmente apresenta sérias dificuldades logísticas para muitas pessoas (compromissos de trabalho, longas distâncias até os locais de votação ou ameaças de intimidação pessoal), que a votação digital pode resolver. Mas a segurança de dados e privacidade é necessária para fazer isso corretamente. Nesta nova era tecnológica de participação democrática, o anonimato dos dados se torna fundamental.
Cuidados de saúde
Se precisamos de um serviço médico, esperamos que o hospital ou clínica mantenha essas informações em privado. Registros médicos acessíveis publicamente podem fazer com que as seguradoras aumentem nossas taxas, que empregadores considerem rescindir contratos ou que indivíduos maliciosos nos tenham como alvo. Os dados médicos são, sem dúvida, importantes para traçar tendências sociais, mas desvincular indivíduos de seus dados pessoais por meio da anonimização de dados garante que todos tenham acesso irrestrito a serviços de saúde.
Talvez os registros físicos sejam definitivamente coisa do passado, mas garantir a privacidade e o anonimato dos registros digitais ainda é um problema. Com o aumento dos vazamentos de dados e ataques cibernéticos, é mais importante do que nunca garantir que nossos esforços para buscar serviços sociais e médicos estejam protegidos. Por exemplo, no caso de mulheres que buscam serviços de aborto em outros estados e que podem enfrentar retaliações comunitárias ou legais, o anonimato digital pode ser uma parte crucial para garantir uma passagem segura.
Denúncia
Muitas pessoas trabalham em empresas privadas, públicas e governamentais, e podem ser testemunhas de muitos abusos. Mas, se esses trabalhadores precisam denunciar irregularidades, manter seu anonimato com jornalistas ou reguladores pode permitir que falem livremente sobre a opressão ou exploração de outros, sem medo de represálias. O anonimato pode garantir a justiça social.
Mas até mesmo os jornalistas, por exemplo, precisam de meios tecnológicos garantidos para preservar o anonimato e a segurança de suas comunicações com fontes. É por isso que aplicativos de mensagens privados e criptografados de ponta a ponta foram uma revolução: não para permitir que as pessoas cometam crimes, mas para finalmente garantir privacidade e segurança na comunicação com outros em um espaço digital repleto de adversários maliciosos.
A lista continua. E é por isso que precisamos parar de estigmatizar o anonimato quando se trata de privacidade digital. As ameaças que nos cercam são muitas, variadas e onipresentes.
A urgência do anonimato online
Os “direitos” políticos não caem do céu como verdades incondicionais, e o direito à privacidade é um exemplo disso. Os direitos são exigidos, lutados, implementados e defendidos ao longo do tempo em relação às necessidades reais dos seres humanos. Em alguns contextos, pode ser necessário lutar contra a opressão e a injustiça, enquanto em outros, é simplesmente para viver melhor e mais seguros com os outros.
Com todas as ameaças que pairam sobre nossas vidas digitais, a privacidade online precisa continuar seu caminho para se tornar um direito reconhecido globalmente. Mas, nesta era digital, o anonimato é uma ferramenta necessária para alcançá-la, especialmente em contextos onde a privacidade está ameaçada. De fato, a necessidade de anonimato online é ainda mais urgente, dada a quantidade de informações pessoais que estão sendo disponibilizadas online, muitas vezes sem nosso conhecimento e consentimento genuíno.
O anonimato é significativo, especialmente em um contexto social como a web pública, onde precisamos agir sem comprometer nossa identidade pessoal. O anonimato nos permite ser membros ativos da sociedade enquanto nos protege de seus perigos. Os exemplos acima são apenas alguns momentos em que isso realmente importa.
Quem tem medo do anonimato?
A Nym está dedicada a explorar todas as necessidades sociais para o anonimato digital e o que seria necessário para torná-lo tecnologicamente possível. Esta é a primeira parte de uma série que explorará os aspectos do anonimato online, suas consequências no mundo real e casos de uso, além da forma como está sendo injustamente alvo de ataques políticos.
Nos próximos episódios, exploraremos o papel do anonimato na votação, tanto online quanto offline, a necessidade de proteger nossas identidades ao buscar serviços de saúde e a importância de nos protegermos ao falar contra injustiças sociais e institucionais. Fique ligado!
Sobre os autores

Casey Ford, PhD
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